
A professora foi chamando os alunos um por um, entregando a autorização para participarmos da festa junina. A ultima vez que dancei quadrilha foi na pré-escola, e agora na primeira série eu estava apreensivo. A escola nova era bem diferente da que ficou para trás
Guardei meu bilhetinho na mochila e encostei a cabeça na mesa, aguardando a batida do sinal. Como de costume, o minuto antes de irmos embora a professora usava com musicas melancólicas de despedidas... até parece que a gente não ia se ver no outro dia..
“oooh tra-lá-lá-lá-oooooh, o pato se mandou, o jacaré morreu, depois que o ribeirão secou...”
“esta chegando a hoooooora de ir! Vim aqui me despedir e dizer... la la la la la”
Um milhão de vezes eu preferiria corre cotia. De momento houve silêncio e escutei os alunos se colocarem de pé. Quando ergui a cabeça já era tarde, a diretora tinha entrado na sala e eu ainda estava sentado. O olhar clinico da morcega velha me focou e tremendo eu me pus de pé, quase em posição de sentido.
- Professora Luciana, eu recebi uma reclamação de um pai crente e decidi que só alunos católicos ou sem religião poderão participar da festa junina – disse a diretora.
Quando dei por mim, já tinha soltado um sonoro “Puta merda”.
- O que você disse? – a professora voltou-se incrédula para mim.
Depois do frio cortante que rasgou minha espinha, tive a presença de espírito de ser rápido na resposta – Minha mãe é testemunha de Jeová... Sabe, aqueles que vendem revistinhas...
- Devolva sua autorização – disse ela secamente.
- Não – respondi, segurando a folha entre meus dedos pequenos, com toda a valentia que um menino de sete anos pudesse reunir – Eu irei à festa.
Segurei a respiração e esperei ganhar um toco de giz no meio da testa, como era de praxe a professora recorrer a qualquer meio litigioso para nos intimidar. Agradecia a Deus pela régua e a palmatória ter sido abolida há 50 anos. O giz não veio, pois o sinal bateu. Sai em disparada o mais rápido que eu pude. Lá fora, na rua, esperei o Caio que vinha logo atrás.
- Você é louco – disse ele, sorrindo – a tia ficou brava, acho que ela vai ir lá à sua casa falar com a sua mãe.
Dei com os ombros, peguei um galho de arvore no chão e fiquei batendo ele na grade dos portões a caminho de casa. Criei coragem e fiz o que queria dizer desde que soube da festa junina da escola.
- Caio você quer dançar comigo na festa?
O garoto parou de súbito e me encarou sério. Depois disso ele riu até dobrar a barriga sobre os joelhos – Você é um menino. Meninos não dançam juntos. – ele respondeu maduramente.
- Por quê? – perguntei.
- Não sei – ele disse, e sem malicia alguma, continuou – Se você fosse uma menina, eu dançaria com você.
Fiquei irritado logo que ouvi isso. “Se você fosse menina...” Pois bem, quando eu queria dançar balé na academia de expressão corporal, obtive a mesma resposta do meu pai, que já estava muito puto por eu estar usando o salto de mamãe. Mas eles não entendiam. Eu não queria ser mulher para fazer estas coisas fabulosas, eu adorava ser menino. E agora o Caio impôs esta mesma barreira vaginal sobre mim.
Porque eu precisava ser menina para segurar a mão dele? Porque eu não poderia beijá-lo, como fazem os adultos? Caio era muito mais que um amigo para mim, eu sentia um aperto enorme no peito quando não ficava perto dele. Crianças de sete anos se apaixonavam como os adultos?
Eu estava decidido, se para o Caio dançar comigo, eu teria que ser uma menina, era isso que ele teria.
No caminho, a casa dele era mais perto da escola que a minha.
- Vai lá em casa depois do almoço – eu disse a ele, me despedindo.
- uhum...
Quando cheguei em casa, minha mãe já tinha ido para o varejão e meu almoço estava quente, encima de mesa. Comi sozinho e depois de escovar os dentes embaixo do chuveiro, vesti apenas a cueca e fui ao quarto da minha irmã. Revirei o armário dela e encontrei o que buscava. O fabuloso tutu de balé. Eu o vesti com prática, pois o fazia quase sempre que estivesse sozinho, como no momento, e depois de calçar as sapatilhas, fiquei dançando na sala até ouvir o Caio me chamar. Gritei para ele entrar.
O garoto loiro parou chocado na porta da sala.
- Você é bicha! – gritou ele, rindo de maneira assombrosa.
- Você disse que se eu fosse menina, dançaria comigo – respondi, sentindo meu rosto arder. Então fiz o possível para não chorar na frente dele.
- Mas você tem pinto – disse ele, apontando para a bolotinha entre minhas virilhas.
- Você não vai dançar comigo? – perguntei já desconsolado, sabendo a resposta.
Ele não disse uma palavra, virou as costas e aquela foi a ultima vez que tínhamos nos falado.

