
Eu tinha sete, talvez oito anos. Não mais que isso. Havíamos nos mudado para o interior há alguns meses. Minha mãe precisou montar um negocio novo para arranjar um pouco de dinheiro para nos alimentar. O divorcio havia nos tirado tudo.
Hortolândia, 1993.
Depois de muito esforço, minha mãe arrumou um pequeno salão comercial, montamos um varejão. No começo foi difícil, mas fomos conquistando a freguesia. Eu sempre estudei de manhã. Depois da escola almoçava em casa e minha irmã me levava para o varejão. Ficava lá a tarde toda ajudando mamãe. Ela conseguiu uma vaga na creche pra mim. Era uma casa de fundos, um terreno grande na frente. Destacava-me frente a outras crianças porque eu já sabia ler e escrever... além de saber desenhar melhor que elas, mas nunca me exibi por isso. Ainda sim tinha um valentão daquela creche rural que cismava comigo e me humilhava na frente das outras crianças. Ele me chamava de esquisito. Não compreendia aquilo.
Nosso professor era uma figura estranha para mim. Ele era um transexual e eu não tinha malicia para entender. Ainda sim, o achava divertidíssimo. Depois do lanche ele nos colocava para dormir. Foi nesse dia quem, sem ao menos me tocar, ele me violentou. Deitou-se ao meu lado e ficou me olhando, como se me comesse com os olhos. Porque ele fazia isso?
Estranhamente, minha mãe me tirou daquela escola. Preferiu que eu passasse as tardes com ela no varejão. Então ficava lá em frente, às vezes brincava com as crianças que moravam próximas. Fiz amizade com a cabeleireira ao lado. Ela se encantou com meu jeito doce e educado de menino da capital. Um dia ela plantou uma arvore comigo, regou com água benta. Disse que aquela água especial era mágica e faria a arvore crescer bem. Explicou que eram os padres que oravam na água. Conheci o neto dela, um menino dois anos mais novo que eu.
O garoto era um indiozinho. Muito vivo e alegre. Ele gostava muito de brincar comigo. Ele tinha um primo, da mesma idade que ele. O primo dele me confessou que eles faziam troca-troca. Besteira inocente de criança.
O pai dele, um alcoólatra, me olhava sempre pelo rabo do olho. Disse a mulher dele para proibir o filho dele de brincar comigo. Escutei ele dizer isso a um amigo no bar. Aproximei-me sem ele perceber e me atentei a conversa. "Esse moleque é estranho. Tem voz de menina, não quero meu filho andando com viadinhos".
Fiquei intrigado. Não entendi NADA do que ele dizia. Eu tinha a voz fina? Parecia de menina? Mas oras, eu era uma criança... E o que ele queria dizer com viadinho? Eu era um menino, não um bicho.
Chamei a minha mãe. Expliquei tudo o que aconteceu a ela e perguntei por que o pai do meu amiguinho agia assim? O que tinha de errado comigo? Porque não podia brincar com outras crianças?
Ela não me respondeu. Talvez nunca possa compreender a inocência que se passava nos olhos daquela criança.
Ela não tomou providências. Eu sim. Queria me vingar daquele velho. Fiz um desenho dele sendo atropelado. Escrevi "seu chato burro" e entreguei a ele. Era minha maneira de dizer "Eu não aceito o que você pensa de mim".
Ele me fitou com desprezo. Nunca ninguém havia olhado assim para mim. Não se olha ninguém com desprezo. Ainda mais uma criança.
Lembro-me sempre de um episódio que aconteceu antes de irmos embora de São Bernardo. Meus pais já estavam se divorciando e um amigo de minha mãe, um coroa vendedor de alguma coisa do restaurante, foi almoçar com a gente. Eu tinha quatro ou cinco anos. Usei alguns lenços e tangas da minha irmã e me vesti de cigana. Peguei uma bola de vidro da mesa e disse para o visitante que eu iria ler a sorte dele, pois eu era uma cigana.
Mamãe ficou pasma. Levou-me para o outro cômodo e me fez tirar minha fabulosa fantasia. Disse que eu não podia usar roupas de meninas.
Isso me inquietava mais ainda. O que ela faria se soubesse que eu sempre vesti as roupas de balé das minhas irmãs?
Os anos foram se passando. A cada dia que se passava eu notava o quão diferente eu era das outras pessoas, particularmente, o como eu era diferente dos garotos. Não sabia explicar, era algo que apenas era possível sentir. Para mim todos não passavam de brutos e grossos. Não sabiam o que era amável, delicado e sensível. Isso me machucou a vida inteira.
Sentia coisas que não sabia explicar, nem dizer quem eu era. Então um dia eu fiz quatorze anos...
E TUDO FEZ SENTIDO.
A aptidão natural para as artes... o perfeccionismo, a necessidade de provação, o medo de nunca ser melhor que os outros, a auto-critica agressiva e impiedosamente cruel. O dom de cuidar de bichinhos doentes, a lagrima por assistir o Rei Leão. O jeito impecável em dublar Laura Fabian e a vontade louca de ser artista e sair pelo mundo encima de um palco...
... A maneira apaixonante que eu vislumbrava meu colega de classe a quem eu amei secretamente por anos...
Foi num baque que, aos quatorze anos que eu cobri meu rosto com as mãos e chorei. Chorei por cada dia angustiante que busquei respostas, chorei pela vida que me pregava peças e me deixava perdido em meio ao nevoeiro. Chorei pelo dia em que eu queria ser a noiva na festa junina, chorei pela surra que levei na escola dos outros meninos. Chorei por ser o esquisito na escola, o excêntrico da igreja, chorei porque sentia que ninguém no mundo jamais me compreenderia. Chorei porque descobri, finalmente, que eu era Gay.

Sua história. Suas dores. Suas palavras.
ResponderExcluirComovente, parabéns.